Fernando Dannemann

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HÉRCULES - OS DOZE TRABALHOS

(04) O JAVALI DE ERIMANTO

 

            Erimanto era um deus-rio da Grécia antiga; mesmo nome dado a um filho do deus Febo (Apolo) que foi penalizado pela deusa Afrodite (Vênus) com a perda da visão porque ele a surpreendeu quando se banhava despreocupada em uma fonte de águas mornas e cristalinas. Dessa punição injusta e arbitrária resultou, mais adiante, que Fébo, para vingar-se, transformou-se em javali e matou Adônis, amante da deusa. Coincidência ou não, o fato é que na montanha de Erimanto, situada no extremo noroeste da Arcádia, Grécia antiga, próxima ao golfo de Corinto, havia um javali tão feroz que destruía tudo o que encontrava pela frente. Os habitantes da região o temiam com justa razão porque a fera atacava todos os humanos com que se defrontava, quase sempre ferindo gravemente os que não conseguiam escapar de suas presas, chegando, às vezes, a matar alguns desses desafortunados. Esse bicho terrível era conhecido pelo nome de Javali de Erimanto, e não havia nas redondezas quem não desejasse vê-lo morto a qualquer preço, para terminar de vez com aquele sentimento de terror e pânico que afetava a todos do lugar.

 

            Ao tomar conhecimento da existência desse animal perigoso ao extremo, o rei Euristeu, de Micenas, decidiu que o quarto trabalho de Hércules seria o de capturar essa criatura bravia e violenta, e levá-la viva ao seu palácio como prova do cumprimento exato da tarefa de que fora incumbido. E foi o que o herói grego fez sem pensar duas vezes: partiu para a região assolada pelo javali levando consigo apenas a clava que carregava costumeiramente; o arco novo com que fora presenteado pelo deus Apolo ele deixou para trás, pois entendeu que não teria necessidade de usá-lo para dominar e levar até o rei a fera que espalhava tanto medo por toda parte.

 

            Na subida da montanha Hércules encontrou seu amigo Phobos, um centauro filho de Sileno - divindade das florestas e das fontes, um sátiro metade homem, metade bode ou cavalo, e educador de Baco - com uma melíade - ninfa filha de Cronos -, a quem conhecera em visita anterior à região. Convidado por este a passar a noite em sua casa, o herói aceitou a hospedagem, e por isso os dois se dirigiram para lá e ficaram conversando. Até o momento em que Phobos sugeriu que abrissem um barril de vinho que não era dele, pois pertencia aos centauros locais, e que lhes fora entregue pelos deuses com a condição de que só poderia ser aberto quando todos estivessem reunidos. A sugestão foi aceita com agrado, os dois começaram a beber, ficaram bêbados e passaram a fazer muito barulho, o que chamou a atenção dos outros centauros. Estes acorreram à casa de Phobos, e quando descobriram o que havia acontecido irritaram-se com justa razão, essa irritação logo se transformou em raiva que redundou numa batalha feroz na qual o dono da cabana acabou morrendo. Aí, enquanto os companheiros do centauro morto lamentavam o acontecido, Hércules cuidou de se afastar do local sem chamar a atenção, reiniciando assim sua caminhada em busca do javali.

 

            Chegando à parte mais alta da montanha ele tratou de procurar por pistas do animal, mas não as encontrou logo de imediato. Mas como era persistente e atencioso quanto aos detalhes que poderiam definir o sucesso ou insucesso da caçada, acabou descobrindo o que procurava, o que é descrito pelos cronistas da época de duas formas diferentes. Na primeira, após encontrar a furna onde a fera se entocava, Hércules procurou chamar sua atenção postando-se à entrada da caverna e gritando o mais alto que podia. Seu estratagema deu resultado, porque o javali guinchou raivoso lá de dentro e saiu em busca de quem o afrontava. Nevava, na época, e por isso o solo achava-se coberto por grossa camada de neve. Hércules corria à frente do animal que o perseguia com enorme dificuldade porque suas patas afundavam na cobertura branca e macia que tomava conta da encosta da montanha, e isso o foi cansando de tal modo que finalmente ele tombou para o lado, totalmente extenuado, do que se aproveitou o caçador para enleá-lo na grossa rede que levava consigo, tornando-o prisioneiro.

             

            A outra versão revela que após descobrir uma das trilhas por onde o javali costumava passar, Hércules preparou uma armadilha, escondeu-se em uma moita próxima e ficou à espera. Várias horas se passaram, a noite se foi, até que no alvorecer do novo dia o herói finalmente ouviu os ruídos feitos pelo animal que caminhava em busca da alimentação matinal. Ele veio se aproximando sem desconfiar da ameaça armada à sua frente, e por isso caiu no laço, sem conseguir se libertar.

 

            Satisfeito por ter completado com êxito a sua missão, Hércules desceu da montanha gelada e retornou a Micenas, entregando a Euristeu o javali que ele desejava. As antigas ilustrações desse episódio costumam mostrar o rei de Micenas acovardado, refugiando-se em um grande jarro, sugerindo, assim, que ele talvez tenha se arrependido da ordem que dera

 

Diz a lenda que talvez tenha sido durante o decurso desta sua estadia na Arcádia que Hércules seduziu Auge, filha do rei Áleo de Tégea, e sacerdotisa de Atena. Desta união nasceria Téleto, aquele que dentre os seus setenta filhos, mais se pareceria com o pai.

 

Na ilustração que encima esta página, Hércules, o javali do Erimanto e Euristeu, em ânfora ática de figuras negras, do pintor de Andócides (?). Data: -510 - Paris, Museu do Louvre.


FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

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Publicado em 21/09/2007 às 22h01


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