|
Textos
ESCADA
Superstição é crendice, preconceito, fanatismo, um desvio do sentimento religioso que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas sem importância, a inspirar ou depositar confiança em coisas vãs e desprovidas de sentido. O termo é muitas vezes empregado num sentido vago e difícil de ser definido, porque como o misticismo que envolve tal conceito torna impreciso o limite entre o verdadeiro e o falso, muita gente disso se aproveitou para estabelecer normas de procedimento inventando supostos castigos e infelicidades a que estariam sujeitos os infratores dessas regras.. Como no caso dos espelhos, na Idade Média, que por serem muito caros levaram os nobres que os possuíam a advertirem seus serviçais sobre o extremo cuidado com que a limpeza dos mesmos deveria ser feita, pois quem tivesse a infelicidade de quebrar um deles estaria fadado a viver sete anos de mau agouro.
A escritora Paula Simon Ribeiro esclarece em “Folclore: similaridades nos países do Mercosul”, que “As origens das crendices e superstições são tão antigas quanto a própria humanidade. No Brasil, chegaram com os portugueses, mesclaram-se às crenças dos indígenas, posteriormente às dos africanos escravos. E com o decorrer do tempo foram incorporadas à cultura brasileira juntamente com as crenças de outros imigrantes que aqui aportaram. O homem ancestral, não encontrando explicação para alguns fenômenos da natureza ou origem das coisas, buscava em sua imaginação alguma explicação mágica. O medo e a dúvida foram os grandes geradores de crendices, e as tentativas de neutralizar esses medos e presságios geraram uma série incalculável de crenças que o povo possui”.
A superstição nada mais é que uma crença que traz consigo o medo das conseqüências, e a escada um exemplo dessa convicção. No Brasil é incalculável o número de pessoas que não passam por debaixo dela por acreditar que isso poderá lhes acarretar qualquer tipo de azar ou infortúnio, o mesmo acontecendo na França, Bélgica, Holanda, Itália, Espanha, Portugal, e outros países europeus e americanos. Mas como surgiu tal opinião?
A versão mais aceita é a de que ela tenha se originado durante a Idade Média, época dos castelos protegidos por altas muralhas: quando eram atacados, levantavam-se as pontes e fechavam-se os portões de entrada, de modo tal que o único meio de invadi-los era com o uso de escadas. Como defesa para esse tipo de investida costumava-se derramar óleo fervente sobre os inimigos, e nessa hora, quem subia ou firmava a escada recebia um banho mortal. Daí surgiu a certeza de que segurar uma dessas peças por baixo não era um bom negócio porque isso poderia trazer má sorte para o infeliz que estivesse em tal posição, pensamento que atravessou os séculos e permanece até hoje simbolizando o receio dos passantes quanto à possibilidade de que alguma coisa possa escapar das mãos do pedreiro ou pintor que esteja trabalhando lá no alto, e lhes caia na cabeça. Dessa forma, a crença de que passar por baixo de escada dá azar pode ser considerada como precaução, uma forma de evitar acidentes. Onde tem uma escada, geralmente há alguma obra, e passar por ali significa que o pedestre pode estar correndo o risco de que alguma coisa despenque lá de cima e o atinja no crânio ou qualquer outra parte do corpo, ferindo-o até mesmo com alguma gravidade. E essa é uma probabilidade que não envolve nenhum misticismo, a não ser, é claro, que se queira acreditar nisso.
Outra explicação é dada pelo maestro e professor de música Ademar Nóbrega (1917-1979) no texto Superstições e Simpatias, publicado na Revista da Semana, em 1946, quando afirma que “A escada é a imagem da subida, da elevação, do acesso social, econômico e financeiro. Passar por debaixo de quem se eleva é simbolicamente renunciar, afastar-se de quem sobre, progride e vence. Decorrentemente, perde a boa sorte quem passa por baixo de uma escada”.
Resumindo, quem passa por baixo de uma escada, na opinião dos supersticiosos, fica marcando passo a vida inteira, sem melhorar sua condição social e financeira, embora tenha gente que defenda o ponto de vista de que se alguém não faz isso é porque tem receio de que a própria peça possa lhe cair sobre a cabeça.
Este texto também foi publicado em www.efecade.com.br, que o autor está construindo. Visite-o e deixe a sua opinião.
|
FERNANDO KITZINGER DANNEMANN |
 | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas. |
Publicado em 19/03/2007 às 17h30
|