Fernando Dannemann

Contador de histórias

Textos


AREU (MARTE) 

          Os gregos tinham Areu, ou Ares, como o deus da guerra, da violência, da bravura cega e temerária, e davam-lhe como atributos a lança e a espada, e depois o archote, o cão e o abutre, colocando a seu redor divindades maléficas como Agon, o Combate, Eris, a Discórdia, Deimos, o Terror e Fobos, o Espanto, e ainda as divindades de morticínio (Ênio e os Querés) 

          Segundo a lenda, Areu, era filho de Zeus e de Hera, e tumultuava o Olimpo com as brigas que arranjava, principalmente com Hércules e Atena, sendo um dia algemado pelos gigantes Aloídes, mas libertado por Hermes. Areu só se dava bem com Afrodite, o que acabou provocando comentários sobre seus amores com ela. O poeta Homero (século 6 ou 7 a.C.), conta em sua obra Odisséia, como foi que os dois amantes acabaram surpreendidos por Efesto (Vulcano), e por isso encerrados numa rede e expostos ao riso dos imortais. Pelo relato, “Marte se tinha posto em guarda contra os olhares perspicazes de Febo, seu rival junto da bela deusa, e colocara Alectrion, seu favorito, como sentinela. Mas tendo este adormecido, Febo percebeu os culpados e correu a prevenir Vulcano. O marido ultrajado envolveu-os em uma rede, que tanto tinha de sólida como de invisível, e tomou todos os deuses como testemunhas do crime. Marte castigou o sentinela transformando-o em galo, e desde então essa ave procura reparar o seu erro anunciando com seu canto o nascimento do dia. Vulcano, a pedido de Netuno e sob responsabilidade deste, desfez os maravilhosos laços. Os cativos, postos em liberdade, voaram, uma para a Trácia, sua terra natal, e outro para Pafos, seu retiro predileto”. (Marcio Pugliesi). 

          Na Ilíada, o mais antigo dos poemas homéricos, Areu é mencionado apenas como o deus dos combates e da força bruta, sendo vencido muitas vezes por Atena ou por alguns protegidos dessa deusa. 

          A Grécia clássica não sabia muito mais sobre a história do seu deus das batalhas. Pela pobreza e monotonia dos relatos sobre ele, o ciclo de Areu contrasta com a riqueza dos outros ciclos divinos, o que se explica pelo fato desse deus nunca ter sido popular entre os gregos. O centro do seu culto situava-se na Trácia, de onde passou à Beócia, mas existiam templos na Lacônia, Tegéia, Hermíone e Trezena, embora pareça que nenhuma cidade o tomou como protetor. Os atenienses consagraram-lhe o rochedo vizinho à Acrópole, chamado Areópago - Colina de Areu -, porque segundo a tradição, nesse monte instalou-se um tribunal criado para julgar Areu pelo crime de ter matado um filho de Posseidon. 

          Os romanos, povo que havia construído um império do Ocidente ao Oriente, escolheram Marte como o deus da guerra, personificando-o como o ideal de soldado que buscavam. Na época, ele só perdia em importância para Júpiter, e com o correr do tempo tornou-se deus da guerra e assimilou todas as lendas relativas a Areu. Seus atributos eram a lança e a tocha ardente e suas festas ocorriam na primavera e outono, início e fim dos períodos agrícola e militar. Em 15 de outubro, realizava-se uma competição de carros puxados por dois cavalos, e em 19 de outubro o Armilustrium assinalava a purificação das armas de guerra, que eram guardadas durante o inverno. Sob o governo de Augusto o culto a Marte ganhou novo ímpeto, pois além de tradicional guardião dos assuntos militares do estado, ele se tornou protetor do imperador, recebendo o nome de Mars Ultor (Marte, o Vingador). 

          Seu culto às vezes rivalizou com o de Júpiter, e por volta do ano 250 d.C., Marte era o mais importante dos deuses militares venerados pelas legiões romanas. Ofereciam-lhe como vítimas o touro, o cachaço, o carneiro e, mais raramente, o cavalo. O galo e o abutre eram-lhe consagrados. As matronas romanas sacrificavam- lhe um galo no primeiro dia do mês que tem o seu nome (março), e era por esse mês que o ano começava, até o tempo de Júlio César. 

          Os antigos monumentos representam o deus Marte de um modo bastante uniforme, sob a figura de um homem armado usando capacete, uma lança e um escudo, ora nu, ora com roupas de guerra, e também com um manto sobre os ombros. Algumas vezes mostram-no com toda a barba, mas geralmente imberbe. Outras vezes empunha o bastão de comando. Sobre seu peito vê-se o escudo com a cabeça de Medusa. Às vezes em seu carro tirado por cavalos fogosos, às vezes à pé, sempre em atitude guerreira. O seu epíteto Gravidus significa “aquele que marcha a passos largos”. 

          A terça feira era-lhe consagrada (Martii dies)



FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Publicado em 13/01/2007 às 21h57

Crie o seu próprio Site do Escritor no Recanto das Letras
Página atualizada em 09.02.10 15:18