1734 - PRIMEIRA RODA DOS EXPOSTOS
Roda da Misericórdia, ou Roda dos Expostos, era uma espécie de armário colocado nas portarias dos conventos, hospitais e casas de misericórdia, onde as criancinhas recém-nascidas, e enjeitadas, podiam ser deixadas sem que seus pais se identificassem. Na Bahia, a Santa Casa de Misericórdia foi a primeira instituição do Brasil a ter uma Roda destinada a essa finalidade.
Em 1726, a cidade de Salvador, na Bahia, tinha em torno de 30.000 habitantes, e o abandono de crianças já constituía um sério problema. Diariamente, pela manhã, podiam ser encontrados nas ruas da cidade os corpos de recém-nascidos deixados à própria sorte por seus pais, e que acabavam mutilados por cães e porcos. Essa situação chegou a um ponto crítico, o que acabou provocando a reação do vice-rei Vasco Fernandes de Meneses, Conde de Sabugosa, que entregou à Santa Casa a tarefa de criar uma Roda para acolher os bebês enjeitados. Em 1734, depois de autorizada pelo rei, a Roda do Asilo do Santo Nome de Jesus passou a receber os pobres pequenos.
Consistia ela em uma espécie de armário cilíndrico com um de seus lados abertos, girando em torno de um eixo vertical. As mães e pais colocavam a criança neste receptáculo, faziam-no rodar, e depois puxavam uma cordinha com uma sineta, para avisar a vigilante da instituição que um bebê acabava de ser abandonado. Então, enquanto do outro lado alguém da instituição beneficente recolhia a pequena criatura, a pessoa que a levara até ali deixava o local furtivamente, sem ser identificada. A partir de 1862 a Roda foi transferida para a instituição erguida no Campo da Pólvora, na mesma cidade, com a finalidade de abrigar menores carentes. Foi assim que surgiu o Internato Nossa Senhora da Misericórdia, conhecido atualmente como Pupileira. Nesse lugar, ela permaneceu até 1935.
O Arquivo Histórico da Santa Casa de Misericórdia mantém guardados cerca de trinta e cinco volumes manuscritos com os registros das crianças deixadas na Roda. Além de informações sobre o dia e horário em que a criança foi recolhida, e suas condições de saúde, estes valiosos livros reproduzem também cartas e bilhetes das mães, que normalmente acompanhavam os recém-nascidos abandonados. Entre instruções e informações relativas ao batismo da criança, a descrição dos seus objetos pessoais e promessas de volta para buscá-la, encontram-se comoventes depoimentos de mulheres oprimidas numa época em que uma mãe solteira era motivo de desonra para a família. Como no exemplo a seguir, publicado no site da entidade:
"Entra hoje, 26 de maio de 1902, o inocente que se chamará José Maria, branco, nascido a 24 de maio de 1902, natural deste Estado. Será retirado por quem apresentar um documento idêntico a este no dia que completar três anos de nascimento. Não é levado aí por abandono de sua extremosa mãe; pois ela compreende o verdadeiro amor e deveres maternais e tem recursos intelectuais e pecuniários para ministrar-lhe o indispensável. É unicamente por dignidade pessoal e de família, que é indispensável coonestar por algum tempo, isto é, não tendo a criança em casa alguma particular, para não aparecerem maus juízos ou conclusões que comprometam, pois é fruto de um amor infeliz!!!"
Sobre a origem da Roda dos Expostos, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia revela que “ao puxarem suas redes do fundo das águas do Rio Tibre, os pescadores romanos do século XIII não traziam apenas peixes para os seus barcos, mas corpos de recém-nascidos lançados ao rio por seus próprios pais. Preocupado com esta situação, o Papa Inocêncio III designou o frei Guy de Montpellier para criar um serviço no Hospital do Espírito Santo, em Roma, para receber as crianças enjeitadas. O religioso mandou abrir um buraco na parede e encaixar ali uma espécie de caixa cilíndrica, onde a criança podia ser deixada sem que a mãe precisasse se identificar. Assim nasceu a "Roda dos Expostos", também chamada de "Roda dos Enjeitados", que logo se disseminou por toda a Europa e depois por outros países”.
Na ilustração, a Roda dos Expostos que integra o acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
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