ESPERANÇA
A esperança, uma espécie de gafanhoto pertencente à ordem Orthoptera, família dos Locustídeos, gênero Locusta, se caracteriza por ter as asas anteriores largas. De cor geralmente verde, embora inúmeras outras espécies apresentem variedades diferentes de cores, ela possui um tubo ovipositor (órgão usado pelas fêmeas de artrópodes para depositar os seus ovos), longo e curvo, lembrando uma espada oriental, além de antenas muito longas e finas, ao contrário dos gafanhotos comuns, que as têm mais curtas. Sua vida adulta é curta, pois só dura pouco mais que os três meses de verão. Com a aproximação do inverno, e o conseqüente registro de temperaturas mais baixas, ela não resiste ao frio e acaba morrendo, mas antes que isso ocorra a fêmea põe os seus ovos na terra, durante o outtono. Estes resistem ao clima desfavorável e eclodem na primavera, quando então as ninfas iniciam seu processo de crescimento. Durante todo o verão elas comem e crescem, repetindo o mesmo ciclo de vida experimentado pelas gerações anteriores e assim dando continuidade à espécie. O som que ela produz é variado, às vezes semelhante ao cricrilar dos grilos. Segundo as professoras Carina Marciela Mews e Neucir Szinwelski, do Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa, só alguns dos sons produzidos pelos insetos podem ser ouvidos pelo homem, isso porque o aparelho auditivo humano capta sons na freqüência de 20 a 20.000 hertz (unidade de medida do som), enquanto esses artrópodes os emitem na freqüência de 1 a 100HZ. As mestras esclarecem que o som produzido por cada espécie animal é único, fundamental para machos adultos se comunicarem com fêmeas adultas da sua espécie visando o acasalamento e a reprodução, e ele “pode vir da expulsão de ar através dos espiráculos (orifícios na lateral do corpo, responsáveis pela respiração), que é um mecanismo comum em baratas e borboletas; a percussão é outra forma de produção de som e se caracteriza por batidas contra a madeira úmida, método utilizado por cupins e besouros. O bater de asas, mais uma maneira de fazer o som ecoar, é comum entre abelhas, moscas e mosquitos. Os gafanhotos produzem som por estridulação, ou seja, friccionando as pernas. A estridulação dos grilos e das esperanças é diferente, provém da fricção das asas”. Ela é também um dos insetos mais curiosos no que diz respeito ao mimetismo, propriedade que alguns animais têm de tomar a cor ou a configuração dos objetos do meio em que vivem, ou de qualquer ser pertencente a esse meio. Graças a essa capacidade a esperança procura dissimular-se no meio da folhagem, tomando o feitio e a cor desta, Há espécies cujas asas em repouso imitam com extraordinária perfeição as folhas do galho sobre o qual se assentam, adquirindo o feito e a cor destas, inclusive simulando de modo impressionante as nervuras que as mesmas possuem, e até mesmo as lesões e recortes nas bordas, provocados por fungos. Presentes em todo o Brasil, as esperanças são fitófagas, ou seja, só se alimentam de vegetais, e para satisfazer sua necessidade de comida incluem no cardápio que lhes agrada diversos tipos de plantas. De hábitos noturnos, podem ser encontradas em zonas rurais e urbanas, em matas ou áreas cobertas, e como não conseguem voar longos trechos, compensam essa limitação saltando grandes distâncias, em relação a seu tamanho. O jornal “A Tribuna”, de Cuiabá, Mato Grosso, publicou, em 11/05/2007, matéria enfocando o aparecimento repentino de grande quantidade do inseto esperança em Rondonópolis, naquele estado, o que levou o biólogo Marcos Antônio da Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso, a enviar e-mail à redação do mencionado órgão de imprensa, fornecendo detalhes a respeito. Diz ele, nessa mensagem, que apesar de fitófagas as esperanças não atacam lavouras E esclareceu que elas possuem uma enorme quantidade de predadores, principalmente sapos, aranhas, corujas, morcegos, pássaros como a andorinha, outros insetos, como o louva-a-deus, e até mesmo, e ocasionalmente, os ratos, gatos e outros animais. Diz o biólogo que “com a degradação constante do meio-ambiente, principalmente com o uso indiscriminado dos agrotóxicos, o impacto da ação antrópica (ocupação do ser humano em certas áreas) tem modificado grandemente o equilíbrio ecológico, com a destruição de habitats de inúmeras espécies”. E lembra que cada habitat é único, inclusive o nosso, e não pode ser mudado sem causar transtornos. A esperança é um inseto de bons presságios. Quem a vê logo procura tê-la em suas mãos, pois acredita que algo de bom vai lhe acontecer. A escritora Clarice Lispector, em um conto seu intitulado ”Uma Esperança”, diz que “Aqui em casa pousou uma esperança, não a clássica que tantas vezes verifica-se ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre, mas a outra, bem concreta e verde: o inseto”. Ela estava, no conto, em companhia de dois netos, e depois de relatar o que acontecera naqueles minutos em que o pequeno bichinho esverdeado prendeu a atenção deles três, tendo provocado, inclusive, a morte de uma aranha, ela conclui sua pequena história: “Não havia dúvida: a esperança pousara em nossa casa, alma e corpo, mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde e tem uma forma tão delicada que isso explica porque eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la. Uma vez, aliás, agora que me lembro, uma esperança bem menor do que esta pousara no meu braço, não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: e essa agora? Que devo fazer? Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E acho que não aconteceu nada”. |