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Textos
SÃO OUTROS QUINHENTOS
A classe dos nobres sempre foi caracterizada pela transferência hereditária de uma categoria social privilegiada. Nas sociedades primitivas, os indivíduos transformados em chefes cercavam-se de elementos cujo poder e prestígio provinham do apoio dado ao líder do grupo. No Egito dos faraós, na Assíria e na Babilônia, sacerdotes e guerreiros constituíam a nobreza que rodeava o trono e lhe dava sustentação; nos territórios conquistados pelos povos antigos, a concessão da nobreza correspondia a um prêmio do chefe aos principais cabos-de-guerra. Os eupá-tridas gregos e os patrícios romanos representavam em Atenas e Roma a classe dos nobres, e as tribos germânicas que invadiram o império romano e lhe deram fim, tam-bém já possuíam uma nobreza bastante definida.
Os nobres europeus provinham da aristocracia feudal, constituída pelas doações dos reis aos que os auxiliavam nas guerras da época, e por isso adquiriu força predominante dentro de cada Estado. Em decorrência disso, uma lei instituída na península ibérica em meados do século 13 procurava acentuar ainda mais essa importância, determinando que aquele que ofendesse a um membro da nobreza ficaria sujeito ao pagamento da multa de 500 soldos. E ia além quando estipulava que nos casos de reincidência o autor da ofensa deveria pagar outros 500 soldos ao ofendido. Mas o cidadão comum também teria direito a uma indenização de 300 soldos caso fosse ultrajado por algum nobre, mas não se tem notícia de algum felizardo que tenha conseguido ver a cor desse dinheiro.
No livro Dom Quixote (1605), de Miguel Cervantes, o personagem principal afirma a seu escudeiro Sancho Pança que ele era “fidalgo de solar conhecido, de posses e propriedades, e de merecer quinhentos soldos”. Antes disso (1587), em diálogo que faz parte da peça Filodemo, de Camões, um personagem diz “Dionísia, a mais formosa dama que nunca espalhou cabelos ao vento, é filha de não sei quem”, e ouve em resposta “Esses são outros quinhentos!”.Daí em diante a expressão “são outros quinhentos” passou a ser usada para dar a entender que as coisas não são bem como a gente pensa, e isso continua sendo feito até hoje. Como acontece no texto de Ademir Assunção, autor dos livros Zona Branca e Adorável Criatura Frankenstein, entre outros:
“No momento em que se discute a implantação do Plano Nacional do Livro e da Leitura é importante que o poder público tenha claro a necessidade do fomento à leitura mas também à criação literária, e não apenas ao seu produto, o livro. Livro pode ser qualquer um. Literatura são outros quinhentos. Isso é fundamental para que tenhamos um país não apenas de leitores, mas de bons leitores. E uma literatura forte, viva, em movimento, que possa se ombrear a de qualquer outro país do planeta”..
Ou na resposta da escritora Ana Maria Machado, a mais nova integrante da Academia Brasileira de Letras, à pergunta que lhe foi encaminhada no programa "Ob-servatório da Imprensa" (TVE), que tinha como centro do debate a XI Bienal Interna-cional do Livro:
“E, quem pode ser contra isso? Alguém é contra vender mais ingressos em ci-nemas e teatros, para shows de música, museus ou para espetáculos de dança? Quem "lucra" com isso? Os produtores e agentes culturais, entre eles os próprios artistas e profissionais envolvidos? Claro, sem dúvida, mas sobretudo, o público. Tornar esses bens culturais mais acessíveis ao público é que são outros quinhentos. Possibilitar que mais e mais pessoas possam ter direito à arte? É, outros quinhentos. Mas a Bienal não seria uma iniciativa que nos leva nessa direção?
Ou, ainda, no comentário de Paulo Polzonoff, jornalista e crítico literário, sobre o “Livro de Jó”
“Eu prefiro achar que estou apenas diante de uma fonte de Conhecimento que me deixa tonto e que, de uma maneira nada pragmática, acaba atingindo em cheio a minha vida. O quanto isto é misterioso e miraculoso, são outros quinhentos. O Livro de Jó (de Harry Kemelman), para quem não conhece, conta a história de um homem rico e bem-sucedido que, de uma hora para outra, perde tudo. A desgraça tem uma explicação bastante interessante: Deus está discutindo com o Adversário sobre a relação entre a virtude e o sucesso, para usar um termo mais moderno. Claro que o Mal crê que Jó só sustenta sua fé e as virtudes dela decorrentes porque é um homem bem-sucedido. A hipótese formulada é simples: tire de Jó o que ele tem e, imediatamente, terá um pecador”.
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FERNANDO KITZINGER DANNEMANN |
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Publicado em 16/03/2006 às 07h54
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