Fernando Dannemann

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SÃO FAVAS CONTADAS 

          Fava é o nome dado a várias plantas da família das leguminosas, cujos frutos são vagens inchadas, retas ou curvas, contendo de 3 a 8 sementes grandes e de formato oval. Ela é cultivada desde as épocas antigas, e os egípcios, que evitavam comer seus grãos porque estes eram considerados impuros pelos sacerdotes, se tornaram, tempos depois, grandes produtores do cereal. Os gregos também cultivaram esta planta em grande escala, apesar da proibição de Aristóteles, Pitágoras e seus seguidores, que afirmavam haver semelhança acentuada entre as favas e os corpos animados e por isso atribuíam a elas uma alma sujeita ao fenômeno da transmigração (segundo sua doutrina, a passagem das almas de uns para outros corpos). Essa superstição teve muitos adeptos em Roma, inclusive Cícero, mas Horácio a ridicularizou afirmando que só não a comeria porque nela poderia estar hospedada a alma de algum parente seu. 

          Os romanos fizeram dela um de seus alimentos principais, e já naquele tempo Catão alertou sobre a capacidade que tinha este vegetal de melhorar as terras onde era cultivado. Dessa época em diante a cultura da fava se desenvolveu em quase toda a Europa, sendo sua farinha, rica em proteína digestível, misturada à do trigo nos períodos em que este se tornava escasso. No período dos descobrimentos marítimos ela também foi um dos grandes recursos alimentares utilizados pelos navegadores, porque resistia bem às variações atmosféricas e por isso se mantinha por mais tempo em boas condições de consumo. 

          Acontece que em épocas passadas as sementes de fava também foram aproveitadas em finalidades diferentes, como a de efetuar contas, por exemplo, ou nos processos de votação, sendo que nesse caso os eleitores favoráveis a alguém ou alguma coisa depositavam na urna sementes brancas, e os contrários, sementes pretas, da mesma forma como acontece hoje em dia em alguns clubes chiques quando seus conselheiros, usando agora outros materiais, decidem se a admissão de um novo sócio vai ou não vai ser sacramentada. Depois, bastava contar o número de favas brancas e favas pretas encontradas na caixa, sendo declarado vencedor aquele que tivesse o maior número das primeiras (alguns dicionários registram “fava preta” como sendo voto de reprovação). 

          Esse procedimento é antigo, e o folclorista Luiz da Câmara Cascudo registra que na obra póstuma “Comédia Ulisippo”, editada em Lisboa, em 1618, seu autor, Jorge Ferreira de Vasconcelos, falecido em 1585, já anotava a seguinte fala:  “E porque sei isto há muitos dias, quem de mim quiser alguma coisa, meta a mão na bolsa, porque são favas contadas”. Modernamente, a expressão “são favas contadas” indica a certeza de que as coisas estão decididas, e que não existe o menor risco de que elas possam ser alteradas de alguma forma.



FERNANDO KITZINGER DANNEMANN

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Publicado em 15/02/2006 às 12h47

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